O LUTO

 

 

 Antes de viver o luto, eu tinha medo dessa palavra. Pensar em uma pessoa morta me dava calafrios. Mas, vivenciando a morte da minha filha, a palavra luto não parece uma palavra tão pesada quanto eu imaginava.

O luto é, sem dúvidas, a relação de céu e inferno. Tem dias que o coração acredita fielmente que está tudo bem, que, apesar da saudade, é possível continuar vivendo. Mas tem dias em que o corpo mostra sinais de que iremos colapsar, a respiração passa a ficar densa, como se o oxigênio fosse faltar, a cabeça começa a doer do nada, os músculos ficam tensos e, como uma cereja do bolo, as lembranças boas e também as do momento da despedida passam como um filme longo e lento. O coração aperta e as lágrimas descem com fervor, como se a nossa alma estivesse sendo partida ao meio.

O que eu aprendi com o luto? Aprendi que o tempo não cura nada, tudo isso é uma baboseira. O luto não tem prazo de validade e, às vezes, é cruel sorrir. É difícil planejar um futuro. O luto tem me ensinado que não existem dias fáceis, só existem dias, só dias. Tem dias mais complexos, em que as horas não passam, em que a ansiedade faz morada, em que a vontade de gritar é intensa e momentos em que o corpo estremece. Tem dias que parece tudo normal, mas com um vazio impreenchível e a sensação de que, apesar de tudo estar dando certo, tem algo de errado.

O luto me ensinou que não é somente a dor da saudade ou da perda, mas que o que mais incomoda é a sensação de frustração de não viver o que um dia foi um plano ou um sonho, mas sim uma despedida, sem ao menos ter tido a chance de ouvir o choro ou a voz daquele serzinho frágil e único.

O pesadelo não termina com a dor e com a saudade, pelo contrário, é ainda pior quando não se pode falar abertamente o que sente, porque todos ao seu redor pisam em cacos de vidro. E, para ficar ainda mais difícil, é incontrolável não pensar, não desejar que tudo seja um pesadelo. Já falei das músicas? Às vezes, nem são músicas tristes, mas o contexto do luto deixa tudo melancólico, até uma música qualquer.

O luto também tem a sua face confusa. Quando a gente olha o pôr do sol, ao invés de contemplá-lo, podemos sentir, de alguma forma, que é a pessoa que partiu, que é uma forma de senti-la e imaginar que ela está lá no céu e que aquela vista é um presente.

E quanto mais o tempo passa, nada fica mais fácil. Apesar de tudo parecer distante, ao mesmo tempo parece que essa linha do tempo é um eterno boomerang, onde, às vezes, somos arrastados para o momento mais doloroso de nossas vidas.

E, para os dias em que o coração aperta, eu tento respirar, eu choro, eu abraço a saída de maternidade da minha bebê e tento, mais uma vez, seguir, por ela, por mim. Mas, às vezes, tenho a sensação de que estou confinada, sou tomada por uma dor que nenhum remédio é capaz de curar, tampouco a ferida latente dentro da minha alma, que sempre vai permanecer aberta.

Há o luto. O luto é o processo mais difícil da vida de um ser humano. Já não tenho mais medo dele, porque descobri que abraçar, beijar uma testa gelada e sem vida é o ato de amor mais genuíno que se pode sentir.

 

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