2° CARTA - AGOSTO LILÁS
Oi,
mamãe.
Não
me leve a mal. Sinto a sua falta. Até gostaria de te visitar, mas o Paulo disse
que a gente vai depois. Ele sempre está cansado de trabalhar e não me deixa
sair de casa. Segundo ele, eu não preciso sair, porque aqui dentro tenho tudo
de que preciso.
Mãe,
posso te perguntar uma coisa? O papai, em algum momento, já te fez sentir mal
porque você passou um batom vermelho para sair com ele?
Ontem
aconteceu uma coisa. Não quero que a senhora se preocupe.
O
Paulo e eu fomos tomar sorvete na praça, e eu me arrumei... me arrumei para
ele. Mas ele me fez tirar o batom vermelho e trocar de roupa. Disse que eu
estava parecendo uma vagabunda e que a mulher dele tinha que sair de forma
apresentável para não o envergonhar.
Eu
fiquei sem reação, mas obedeci. Talvez eu tenha exagerado um pouco na maquiagem
e na roupa. Estava um pouco curta, mas precisava ele falar assim comigo? Isso
ficou martelando na minha mente.
Quando
estávamos tomando sorvete, um casal de amigos dele se aproximou e sentou à
nossa mesa. O casal era muito simpático, e o rapaz era bem risonho e
brincalhão. Eu ri muito naquele momento.
Mas,
quando chegamos em casa, o Paulo estava mudado. Estava sério, calado e não
olhava para mim.
Tentei
me aproximar dele e perguntei se tinha acontecido alguma coisa. Ele segurou o
meu braço com força e, olhando nos meus olhos, perguntou se eu já havia saído
com o amigo dele. Eu nunca tinha visto aquele homem.
Neguei,
mas ele não acreditou em mim.
Ele
pegou o meu celular e, apesar de saber a senha, errou três vezes. Alegou que eu
havia mudado a senha e que estava escondendo alguma coisa dele. Depois, quebrou
o meu celular.
Mãe,
passou um filme na minha cabeça. Lembro que, quando era criança, o papai fez a
mesma coisa com a senhora e depois a trancou no quarto. Minha irmã e eu
choramos muito naquele dia. Ficamos com medo. Nunca vimos o papai tão alterado
e proferindo tantas palavras feias.
O
Paulo normalmente é gentil. Apesar da nossa briga, ele sempre se desculpa e diz
que vai mudar. Ele estava com ciúme... com medo de me perder, né?
Estou
bem, mãe. Não se preocupe.



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