1° CARTA - AGOSTO LILÁS


Oi, mãe. A vida de casada não é tão fácil quanto parecia. As responsabilidades de uma dona de casa chegam a ser sufocantes. Às vezes, bem que a senhora falava que casamento não é fácil e que, às vezes, temos que abdicar de certas coisas.

Olha, a senhora lembra do meu emprego na loja, no centro da cidade? Pois é, eu estava prestes a ser promovida, mas o Paulo achou melhor eu recusar. Segundo ele, não havia necessidade de eu trabalhar mais. Acabei me demitindo e o seguro-desemprego, Paulo pediu para que ficasse sob sua posse. Ele diz que vai comprar um terreno para construir a nossa casa. (riso triste)

Ah, mãe, não está sendo muito fácil ter que depender dele para comprar as coisas de que eu preciso. É diferente quando se tem liberdade financeira e se pode comprar o que deseja, né?

Esses dias me peguei pensando na senhora e no papai, e acabei chorando ao lembrar do futuro promissor que a senhora teria, mas que teve que abandonar porque engravidou e o papai não queria que a senhora trabalhasse. Lembro até hoje da fala dele, quando disse:

— Agora você é uma mãe de família. Eu sou o provedor desta casa e quem manda aqui sou eu.

Às vezes, me pego imaginando como a senhora seria se tivesse realizado os seus sonhos naquela época. O papai sempre rebaixava a senhora, falava que não tinha utilidade. Mãe, isso é normal? Porque eu sinto como se estivesse vivendo o mesmo filme.

Sabe, mãe, às vezes o Paulo é gentil. Ele me dá flores e diz que sou a mulher da vida dele. Mas, às vezes, acho que ele age como se fosse o meu dono. Eu me sinto sufocada, mas, quando falo isso para ele, fica dias sem falar comigo e eu passo a me sentir culpada.

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