3° CARTA (AGOSTO LILÁS)
Oi,
mamãe.
Vim
te trazer boas novas. A senhora será vovó. Descobri que estou grávida de dois
meses.
Eu
me sinto muito indisposta. Passo quase a noite toda indo ao banheiro, e a minha
casa está um caos.
O
Paulo reclama muito. Me chama de folgada e diz que sou uma péssima dona de
casa. Reclama que não estou mais dando atenção a ele e que estou desleixada,
que nem sequer as mulheres da vida estão tão acabadas quanto eu.
Chega
a ser engraçado, mãe. Eu não o levo a sério, apesar de ele falar em tom
ofensivo.
Não
estou conseguindo ser presente como mulher. Apesar de ele me procurar várias
vezes, de tanta insistência acabo cedendo, mesmo sem vontade. Às vezes ele me
machuca. Eu não sinto desejo, mas me sinto culpada por não estar sendo uma boa
esposa.
O
Paulo tem feito muitas críticas. Fala que o meu corpo está mudando muito e que
espera que eu não fique uma mulher acabada. Diz que sente nojo de celulite e
que os meus seios estão ficando caídos.
Às
vezes me pego chorando, mãe. Me sinto tão minúscula e o vejo como um carrasco.
Às vezes ele fala coisas pesadas que mexem comigo.
Mas
o amor tudo suporta, né?
Tem
dias que é difícil, mas, como a vovó falava:
"Uma
vez casada, case para viver e enfrente os espinhos e as tempestades."
Mas
é tão difícil...
Por
que amar, às vezes, dói tanto?
Será
que amar é se diminuir para engrandecer o outro?
Mas
não se preocupe comigo. Eu e o bebê estamos bem. O Paulo tem feito o melhor
pela nossa família.



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