UM PEDAÇO DE MIM MORA NO CÉU
As pessoas deveriam pensar melhor antes de dirigir palavras a mim, uma mãe enlutada.
Escuto frases como: “Não chore, depois você vai ter outro bebê” ou “Fulaninha perdeu o filho com um ano, foi pior do que o que aconteceu com você”.
Mas desde quando existe medida para a dor de uma mãe? Desde quando uma filha pode ser substituída por outra?
Minha filha não era descartável. Não era uma possibilidade. Não era “só um começo”. Era vida. Era minha bebê. Era amada antes mesmo de nascer.
Não
existe fórmula capaz de apagar o amor que sinto pela minha filha. Não existe
tempo que devolva o pedaço de mim que foi arrancado. A dor da perda não
desaparece porque alguém acha que “já passou da hora de superar”.
Quando
me virem chorando, não tentem diminuir a minha dor. Não digam: “Não fique
assim”, como se fosse simples desligar o sofrimento.
Não
ridicularizem o meu luto só porque ele não pertence a vocês.
Se a dor não é sua, tenha cuidado com as palavras. Nem toda tentativa de ajuda
realmente acolhe.
O
luto chega sem avisar. Às vezes, em um dia comum, ele me sufoca. Falta ar. O
peito aperta.
As
lágrimas queimam meus olhos e descem sem controle. Meu corpo treme como se
tivesse desaprendido a permanecer de pé.
E
existem dias em que ouvir “Como você está?” soa quase como uma ofensa, porque
não há resposta bonita para quem carrega um vazio irreparável.
Também
existem os olhares de pena. Mas eu nunca pedi pena. Dor nenhuma deveria ser
tratada como espetáculo ou comparação.
Ainda
assim, esperam que eu seja forte, que eu siga em frente, que eu supere.
Mas como superar alguém que fazia parte de mim? Como seguir inteira quando uma
parte do meu coração partiu para sempre, sem despedida, sem aviso, sem um
último adeus?
E
o que mais dói é ver pessoas tentando transformar minha filha em um termo frio.
O
termo “feto” é apenas uma definição biológica usada para descrever a fase do
desenvolvimento de um bebê dentro do útero. É um nome científico, não a medida
do valor daquela vida.
Por
trás desse termo existia um coração que batia, um corpo em formação, uma
história que começava a ser escrita. Existia uma filha esperada, sonhada e
amada. Existia uma pessoa importante para alguém. Importante para mim.
Minha
filha importava.
Sua
vida importava.
Seu
pequeno existir deixou marcas eternas dentro de mim.
E nenhuma palavra fria será capaz de apagar isso.
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