ESTHER

 

Minha querida Esther, hoje faz 30 dias desde que você virou um anjinho. A saudade aperta o meu peito, e eu não sei como reagir a isso. 

Tem dias em que as lembranças me fazem chorar, e ver os vídeos das ultrassonografias e ouvir o seu coraçãozinho bater me faz sentir falta de um futuro que nunca irá acontecer.

Os planos de te ter em meus braços foram interrompidos, e eu tenho que me acostumar com o gosto amargo do luto e do vazio instalado em meu coração. Eu sei que Deus tem planos para tudo e que você brilhou tanto nesses 5 meses que Ele precisou te chamar um pouco mais cedo para ficar do ladinho d’Ele.

Ganhei um anjo, e a sua existência não será esquecida, filha. Às vezes, me pego pensando que deveria ter registrado mais fotos de você no meu ventre, mas esperei que você crescesse mais. A velha mania de deixar para depois momentos que nunca chegarão.

Lembro-me de que uma vez perguntei a Deus se um dia iria ter o privilégio de ser mãe e, em seguida, também falei: “Senhor, que os meus planos coincidam com os Seus e, se não coincidirem, que os Seus prevaleçam.” E foi exatamente isso que aconteceu: os planos de Deus prevaleceram.


No dia 15/04/2026, às 00h30, passei a sentir dores intensas. Eram contrações, e aquilo me assustou muito. Eu jamais pensei que aquelas dores eram o anúncio do adeus. Eu clamei em oração para que tudo ficasse bem, mas, quando fui examinada, a pior notícia que eu poderia receber na vida e o meu maior medo aconteceram. Não havia o que ser feito, meu útero já estava totalmente dilatado. Apesar das dores intensas, eu clamava para que você sobrevivesse. Não importava o que aconteceria comigo, eu só pensava em você, filha.

E as horas se passavam, e as dores aumentavam. Pedi para ouvir o seu coraçãozinho, e me permitiram ouvir. Estava tão acelerado aquele som que eu amava. Eu sentia sua agonia em meu ventre, sentia você se mexer, eu sentia você, mas me senti inútil. Não podia fazer nada para que você sobrevivesse. Horas depois, apesar de as contrações aumentarem e os meus gritos ecoarem por todos os corredores daquele hospital, ainda assim seu coração batia, e você lutava com garra para sobreviver.

Eu sentia a angústia de não saber lidar com aquilo que estava acontecendo, então eu gritei: “Jesus, tende misericórdia!” Eu já estava sem forças, sem fôlego e, por um instante, pensei que nós duas iríamos partir.

Mas não foi isso que aconteceu. Por volta das 05h30, após a bolsa estourar, as dores passaram, mas seu coração parou de bater. Fiquei banhada de sangue, esperando o corpo fazer o seu trabalho. De acordo com os profissionais: “meu corpo iria te expulsar”. O corpo que te guardou, que te acalentou, iria te expulsar.

Mais horas se passaram e, às 07h05 da manhã, você nasceu. Nasceu sem vida, mas ainda assim perfeita. Perfeita para mim e para o seu pai. Tivemos a oportunidade de te colocar em nossos braços, de te ver de pertinho. Você era tão parecida com o seu pai, era grandona, apesar dos 5 meses. Era linda, nossa menininha.

Sua tia pôde te dar um beijo na testa, talvez o beijo mais doloroso que ela já deu. Seu pai te ninou no colo por alguns minutos, e eu te acolhi em meus braços. Segurei em sua mãozinha gelada, mas tão perfeita. Naquele momento, em meio a tanta dor, eu chorei, conversei com você e te amei. Sempre te amarei.

Filha, eu não pude sair do hospital para o último adeus. Seu pai teve que cuidar de tudo sozinho, e isso também me partiu o coração. Ele esteve com a gente o tempo todo, foi o primeiro a te ver nascer, e também foi ele quem escolheu seu caixãozinho e te enterrou junto com a sua bisavó. Você está bem acompanhada.

Esther, às vezes me desespero, me culpo e me sinto péssima quando eu sorrio ou quando passo o dia distraída, mas eu sempre lembro de você, seja olhando para o céu, seja vendo uma borboleta, um gafanhoto ou um sinal de esperança. Eu imagino que é você vindo nos visitar de alguma forma, e isso conforta o meu coração.

Tem dias em que me pego abraçada com a sua saída de maternidade, que foi escolhida e bordada com o seu nome e com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Sabia que recebi um chamado dela? Senti no meu coração a necessidade de fazer assim. Eu sei que aí do céu você está com a melhor mãe do mundo, e ela está te ninando.

Filha, durante os 5 meses que você passou em meu ventre, você me fez ver a vida de uma outra forma. Me fez superar obstáculos que eu nunca imaginei que conseguiria, e eu te agradeço por ter me escolhido para ser a sua mãe. Eu te amo, minha Esther.

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